O Silêncio das Mariposas resgata a história de alguém
sem face, que se esconde nas sombras e no silêncio de seus relatos.
É a história de uma vida sem grandes feitos, sem grandes
conquistas, sem ser grande. Apenas uma vida. Uma vida vampira.
Uma mescla de drama, terror, aventura e conflitos
psicológicos. Um teatro de máscaras e sangue, envolto por
mariposas cinzentas, que bailam em busca de luz. É a ansiedade
traduzida em palavras. É a dor sintetizada em frases. É
o delírio sufocado num livro. É a busca incessante pelo silêncio,
pelo apagar eterno, pelo fim irremediável – um suspiro da
personagem que, num soluço, expõe seu sangue vampiro e sua
única certeza: não há certezas que não caiam por terra.
Apenas o silêncio das mariposas pode ser alcançado – mesmo
que cause dor e desconforto. E tudo por causa de um beijo, um
beijo vampiro, num baile de máscaras, numa noite em que a lua
cheia banhava o céu com uma cor prateada. E, neste turbilhão
de sensações e metáforas, eis que o drama se inicia e se desenrola
numa teia tecida por relatos de uma face sem sexo e sem
nome, apenas com uma cicatriz. Por isso, boa leitura.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
Trecho p. 87-88

Fiquei com meu corpo prostrado ao chão por horas, que pareciam uma eternidade. A escuridão era amainada pela luz das estrelas e da lua e, de bem longe, podia ouvir o barulho da cidade, suas buzinas, gritos, sirenes, risadas, músicas, televisões, rádios, o palpitar do coração da sociedade. Imaginei-me como ser humano, sujeito ao envelhecer, fenecer e morrer pela exaustão do corpo ou outra causa. Tinha vivido apenas vinte e dois anos como um mortal, sempre me reprimindo, me apertando nas minhas máscaras, sufocando-me com meu silêncio, minha melancolia. Quantos desejos abafados, dores sentidas e medos disfarçados só para poder degustar a aceitação social. Todo mundo quer ser amado! Quer ser compreendido! Quer viver sem ter que dar explicações sobre o porquê é daquele jeito. E eu me odiava, representava, queria morrer. Vivia na comodidade de minhas faces sorridentes que choravam; caminhava a esmo, repetindo a minha pessoa que eu tinha concerto, quando na verdade ninguém o tem, pois todo mundo é um ser quebrado, esfacelado, sempre a procura de seu pedaço que vaga no outro. Almas siamesas separadas no nascimento, que procurávamos nosso espelho, nossa identidade, para tentar apaziguar aquele vazio, aquele medo de viver na solidão; eu buscava desesperadamente o meu complemento, minha face verdadeira, mas me deparava diante do muro da incompreensão, do medo, dos dedos apontados, dos risos sarcásticos, das brincadeirinhas e das chacotas: quem é o certo afinal? Ah... E como todos eram perfeitos! Maquiavam as faces, isso sim. E eu sofria no meu silêncio, sentindo as mariposas cinzentas se debatendo à procura de luz, buscando a liberdade dentro do meu ser. E, equilibrando-me na corda bamba das incertezas, pendi para o lado. Entreguei-me ao doce beijo da morte e ali estava: com os mesmos dilemas, as mesmas mentiras, os mesmos medos, as mesmas máscaras. Viver é representar? – perguntava-me.
Adormeci com a cabeça numa pedra e com uma única certeza: o valor da vida está nos dissabores. Só fui acordar quando Lúcio tocou meu corpo dorminhoco esparramado no chão.
Adormeci com a cabeça numa pedra e com uma única certeza: o valor da vida está nos dissabores. Só fui acordar quando Lúcio tocou meu corpo dorminhoco esparramado no chão.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Resenha de Lean Lioncourt

Uma obra deveras fascinante, com fundamentos intelectuais na literatura 'vampírica' superior, porém, de certa forma, transgressor de ideias. O autor trabalha com a ideia de despersonalizar o(a) protagonista talvez para que sejam impelidas apenas as ações, fato este bem trabalhado, que rendeu ótimos frutos na obra.
É sensual sem ser vulgar, é estimulante na medida certa e com caracteres de identificação muito forte com o leitor, fugindo do paradigma da bondade absoluta e maldade relativa, tão em voga atualmente em outras literaturas.
Segue na forma padrão da língua, de fácil assimilação, respeitosa e paradoxalmente atual. É dotado de emoções extremistas enumeradas por um certo conforto e por uma bem trabalhada cronologia. Tem um enredo sagaz, branco, seleto de especificações.
Nota-se também a preocupação, digamos, da escola de Hemingway, em categorizar sentimentos e sensações. É, simultaneamente, físico e químico na leitura, usando do subterfúgio das características anunciadas para traçar uma co-ligação da alma do(da) protagonista com as nossas próprias sensações.
É fascinante ler como o(a) personagem lida com o mundo novo, deixando em paralelo o que já conhecia e algo que, na minha opinião, é intrigante sua adequação a este mundo. No mesmo patamar está a qualidade em que foi redigida simbolicamente as experiências do(da) personagem. Enfim, é uma obra que deu certo no meio de tantas que não vingaram e que, por minha opinião pessoal, deve ser continuada.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Trecho do livro

E foi após mirar a objetiva numa Colombina e num Pierrô, que reparei naquele ser de beleza andrógena e fascinante, que parecia flutuar entre a massa inerte e descontrolada. Tinha uma delicadeza e uma desenvoltura tão sensuais, feito um anjo pisando por nuvens humanas. Trazia apenas um ramo de flores na orelha. Se todos se escondiam por baixo de máscaras e se emolduravam de faces límpidas e sem máculas, ele era o único realmente com o rosto nu, que deixava transparecer a realidade. No Baile de Máscaras, o seu rosto era a verdade sem mentiras, a beleza sem retoques, a morte com vida. Fitei aquele ser de beleza andrógena e ele fugiu aos meus olhares, como se brincasse de esconde-esconde. Enfiei-me pelo turbilhão de braços, pernas e máscaras; mergulhei com voracidade pelas ondas humanas, que exalavam um hálito de prazer e sensações doces e efêmeras. Mas não conseguia achar aquele rosto sem hipocrisias, sem maquiagens, que vagava delicadamente sobre a grama orvalhada e se dissimulava no meio das máscaras e das fitas de cetim, que rodopiavam com a brisa de julho. Meu estômago enchia-se de mariposas cinzentas e eu começava a ouvir o cãozinho negro e triste, ladrando ao meu lado, me acompanhando em uma busca insana por aquele ser. Fechava os olhos e garimpava, em minha memória fotográfica, aqueles traços firmes, decididos, emoldurados de uma pureza cativante, sedutora, sexual. Abria minhas pálpebras e via as mãos lívidas dele, que se confundiam com a multidão eriçada. Corria meus olhos e as mãos se perdiam, como se acenassem pela última vez, dando um adeus.
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